segunda-feira, 4 de maio de 2009

O que pensa o vendedor de revistas que virou deputado


Castelo diz que “Assembleia melhorou” e agora quer a cassação dos taturânicos

Da Editoria de Política
Ele pode ser considerado o deputado menos votado do mundo. Foram exatos 340 votos, na eleição de 2006. Com essa votação, Hildon Fidelis (Castelo) não se elegeria sequer vereador em muitos dos 102 municípios alagoanos. A História ensina que candidato sem voto só se elege, em situações excepcionais, com grandes sobras de votos de campeões de urnas. Não é esse o caso de Hildon Fidelis. Humilde comerciante, dono de uma banca de revista na Av. Amélia Rosa (Jatiúca), ele jamais pensou em se eleger deputado estadual. Sua candidatura em 2006 não passou de uma experiência. Seu nome entrou na lista “só para constar”. Fez o que tantos outros fazem. Ele se lançou na base do “vamos ver em que vai dar”. Apelidado de Castelo, fez cam­panha, cravou seu próprio nome na urna eletrônica e ligou o rádio para acompanhar a apuração. Não se surpreendeu quando ouviu sua votação: 340 votos. Dentro, claro, de suas limitações. Votação ínfima, mas reveladora de uma certeza: tinha muitos amigos. Ninguém foi comprado, ninguém recebeu coisa alguma para digitar seu número. Só voto amigo. O que Castelo não imaginava era que, cerca de 10 meses após a instalação da legislatura, um terremoto chamado Operação Taturana sacudiria a velha Assembléia Legislativa. A Polícia Federal em ação, deputados presos, milhões de reais desviados, um pandemônio. E, três meses depois, 10 deputados afastados, suspensos, impedidos de exercer o mandato. Foi ai que a porta se abriu e a Justiça acabou mandando para o plenário o Homem dos 340 votos. Para se ter uma idéia do que é isso: dos 27 eleitos em outubro de 2006, o menos votado foi o petista Judson Cabral, que obteve exatos 15.074 votos. Ou seja, 43 vezes a votação atribuída a Castelo.
Na entrevista a seguir, o PRIMEIRA EDIÇÃO registra uma síntese do que pensa, hoje, com assento no Poder Legislativo de Alagoas, o deputado menos votado do planeta.

- Em algum momento, após a eleição, passou por sua cabeça a idéia de que poderia assumir o mandato parlamentar?
- Não, Jamais pensei em assumir a condição de deputado estadual. A quantidade de voto foi pouca. Mas, veio a operação da Polícia Federal, investigando os taturanas, e surgiu a oportunidade para os suplentes. Fiquei na 14ª suplência e cheguei lá.
- Como o senhor se sente hoje representando três milhões de alagoanos?
- Muito feliz. Moro aqui em Maceió há 50 anos e conheço bem os problemas da minha cidade.
­- Como o vendedor de revistas se lançou na Política?
- Eu sempre lutei e trabalhei em prol da comunidade. Faço um trabalho social para ajudar as pessoas excluídas da sociedade. A minha missão é essa.
- Qual sua atividade fora da política?
- Sou comerciante, tenho uma banca de revista há 26 anos. Sou um vendedor de informações, mas sou também um missionário. Participo de muitos movimentos da Igreja Católica e atuo nessa problemática que hoje atinge tanto a sociedade, ou seja, a violência causada pelas drogas.
- Como deputado, o senhor trabalha mais nessa área?
- Sim, a minha missão é trabalhar em cima dos dependentes químicos, dos que enfrentam o problema das drogas. Ai reside minha preocupação como deputado.
- O Senhor crê num Poder Legislativo que desceu ai nível em que se encontra a Assembléia de Alagoas?
- Acredito, sim, e ficou melhor depois que os novos deputados chegaram aí com um novo pensamento em criar projetos para beneficiar a sociedade. A população já está acreditando nos novos deputados.
- A seu ver, o Conselho de Ética que está sendo criado terá condições de julgar os deputados indiciados pela Polícia Federal?
- Acredito que sim. A comissão de Ética tem justamente essa finalidade, ou seja, julgar os deputados cúmplices, que fizeram coisas não convenientes. Creio que a comissão de Ética vai ajustar os problemas que tem aqui.
- Quanto ganha um deputado estadual?
- O salário de um deputado é R$ 9.800,00, a gente desconta Imposto de Renda e Previdência, e fica em torno de R$ 7.200,00.
- E o quanto entra mais na conta do deputado como verba de gabinete, como verba de assessoria?
- Isso não entra na conta do deputado. Isso é verba para as despesas com o gabinete e para pagamento aos comissionados.
- O pagamento dos assessores é feito em cheque ou em conta-corrente?
- Em conta bancária, todos eles têm cartão para fazer o saque, eles recebem pelo trabalho que fazem.
- Quanto o deputado recebe para o gabinete?
- Bom, eu não tenho idéia, é através de uma cláusula. É R$ 50.815,00 para pagar os cargos em comissão , e R$ 39.000,00 para o custeio do gabinete.
- O duodécimo da Assembléia é suficiente para a manutenção do Poder?
- Acho que sim. O duodécimo dá muito bem para suprir as necessidades.
- O que o senhor acha da criação do Plano de Cargos e Carreiras dos servidores? É relevante a implantação do PCC?
- Sim, é um assunto que o presidente Fernando Toledo vem discutindo há muito tempo, desde o Natal está sendo estudada a questão do pagamento dos funcionários. É um processo que tem de rever muitas coisas, mas acredito que se vai chegar a uma conclusão.
- Qual sua expectativa sobre a decisão que virá do Supremo Tribunal Federal em relação aos deputados afastados? A seu juízo, o presidente Gilmar Mendes determinará o retorno ou os manterá afastados?
- Isso vai ser resolvido depois da tramitação do processo, depende de uma análise que está sendo feita aí, mas, pelo andar da carruagem, creio que tudo vai chegar a uma decisão positiva para aqueles que estão no exercício de seu mandato, a aqueles que estão fora que continuem fora.
- No plano interno da Casa, o senhor admite que poderá haver julgamento e cassação dos deputados indiciados?
- A gente tem que esperar pela decisão da Justiça. O Ministro Gilmar Mendes, lá do
Supremo Tribunal, está com o processo, então, vamos aguardar...
- E no caso de um julgamento político? O senhor crê que o Conselho de Ética poderá cassar, ou seja, punir os deputados com cassação, depois de todos esses escândalos que ocorreram na Assembléia?
- Acredito que sim, agora, temos que ter paciência. O presidente Fernando Toledo está aguardando alguma informação sobre o processo para que, a partir daí, ele possa tomar uma decisão.
- Em sua opinião, por que não existe transparência, na Assembléia, por exemplo, em relação às finanças? Por que a Mesa não joga aberto com os deputados, informando, explicando quanto recebe, quanto gasta, para onde vai o dinheiro, a que se destina o duodécimo. Por que isso não acontece?
- Realmente, tem que ter transparência. Infelizmente, a gente fica sem saber, quer dizer, é uma situação difícil porque a gente não tem acesso às contas. Vamos esperar que isso mude. Por enquanto, não sabemos é de nada.
Fonte: Primeira Edição de 4 a 10 de maio de 2009

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