domingo, 19 de julho de 2009

Castelo garante que fica na vida pública

Após a volta dos deputados estaduais afastados, suplente ainda acredita que vai voltar à Assembleia Legislativa.

Desde o início da última semana, com a volta à Assembleia Legislativa dos deputados afastados e indiciados pela Polícia Federal na Operação Taturana, o empresário Hildon Fidélis deveria voltar à rotina que tinha até meados do ano passado: passar a maior parte do tempo em sua banca de revistas, que fica na avenida Amélia Rosa, Jatiúca, e se dedicar a projetos na área social, como voluntário. Certo? Errado. Castelo, como é mais conhecido, que vinha ocupando uma das cadeiras de deputado estadual pelo PTB desde outubro do ano passado, garantiu que não vai abandonar a vida pública e os protestos contra a corrupção.“Praticamente, não posso voltar a me dedicar inteiramente à banca atualmente porque ainda estou participando dos movimentos”, disse Castelo, que falou com O JORNAL no início da tarde da última sexta-feira, em sua banca, sobre o tempo em que ficou na Assembleia Legislativa como deputado. Horas antes da entrevista, ele foi o único dos deputados suplentes a participar das manifestações para marcar a passagem do dia 17 de julho de 1997, quando aconteceu o protesto em frente à Assembleia Legislativa para pedir o impeachment do então governador Divaldo Suruagy.


Na manifestação, houve protestos também contra a volta dos deputados afastados. Castelo explica que já participa de atividades contra a corrupção a algum tempo: é integrante do Comitê 9840, coordenado em Alagoas pelo polêmico lider comunitário Antonio Fernando da Silva, o Fernando CPI, que foi seu chefe de gabinete na Assembleia Legislativa.


"Na Assembleia Legislativa, eu deixo claro que não sou favorável à corrupção, que não me junto a esse tipo de gente, pessoas que compram votos e ludibriam os eleitores, conseguem uma quantidade enorme de votos. Eu não tive essa quantidade enorme de votos, mas foram votos conscientes, da comunidade, dos amigos e dos meus eleitores. E eles dizem que realmente continuam me apoiando, me parabenizando e sendo solidários", garantiu.
O empresário de 65 anos, com segundo grau completo, casado, pai de três filhos e avô de uma neta assumiu, em outubro de 2008, o mandato de deputado com o afastamento dos titulares, a pedido do Ministério Público Estadual. Com as vagas abertas, a Justiça decidiu favoravelmente a pedidos de suplentes para assumir. Entre eles, estava Castelo.


Seguindo exemplo de Padre Cicero
Nas eleições de 2006, a primeira que disputou em sua vida, o empresário foi candidato a deputado estadual pelo PTB, mas ficou na suplência da coligação que contou, ainda, com PMN, PFL (hoje DEM), PV e PP. Só teve 340 votos, o que em condições normais, resultaria em grande dificuldade para assumir o cargo. Mas a decisão da Justiça de afastar nove deputados estaduais eleitos pela coligação, somado ao indiciamento pela PF de outros suplentes bem votados, facilitou o processo.

“Para mim foi uma surpresa muito grande chegar à Assembleia com essa quantidade de votos. Considero até uma graça de Deus”, afirma. Castelo conta que a vida de Padre Cícero, de quem é devoto, o inspirou para entrar na vida política. “Meu padrinho Cíço atendia ao povo no Ceará mas não tinha condição de atender a tudo aquilo que era pedido. Então ele chegou ao ponto de se candidatar a prefeito do Crato e foi eleito. Com isso teve maiores condições de ajudar o povo”, assegura.
Natural de Mari, no agreste da Paraíba, Castelo chegou a Maceió na década de 60, na adolescência, quando estudou no Colégio Estadual. Em 1973, foi um dos fundadores do conjunto habitacional Castelo Branco, na Jatiúca, onde mora até hoje.
“Quando Cheguei, ninguém queria morar aqui”, revela. Também é no conjunto onde fica sua banca de revista, que abril em 1982.
“Aqui na banca, que foi aberta há 26 anos, as pessoas chegam aqui pra compram jornal, revista. As pessoas batem um papo. Atendo o povo aqui. Quando eu abro a banca de manhã, já vão chegando as pessoas. Aqui é uma central de atendimento ao público.
Quem quiser pode aparecer.

Crença no retorno ao mandato na ALE

Questionado se ainda tem esperanças de retomar o mandato, ele responde: “Acredito que vou voltar. Isso é questão de poucos dias. Eles vão ser afastados como foram em 2007. Vamos esperar que esse quadro seja revertido e nós possamos trabalhar novamente, dando sequencia ao que vínhamos fazendo como deputado estadual”, disse.

Sobre a volta dos deputados afastados, Castelo declarou: “Lamentavelmente aconteceu isso: a volta desses deputados taturanas, que promoveram um grande desastre enquanto estiveram na Assembleia. A volta deles é uma grande perda para a sociedade, principalmente para o trabalhador da educação, da segurança”.

“Com o montante de dinheiro que eles desciaram anteriormente dava para construir muitas casas e resolver os problemas da educação pública, da saúde, da segurança, onde há um verdadeiro caos”, acrescentou o empresario. Mas ele revela que tem recebido apoio maciço para seu retorno. “Por onde eu passo, o povo é solidário a mim e fala que isso não deveria acontecer. A população é contra a volta deles”, disse, emendando: “A taturana é uma lagarta muito forte, que pode destruir muito mais folhas”.

Além de acreditar no retorno à Assembleia Legislativa, Castelo adianta: pretende ser candidato a deputado estadual em 2010. “Já estou em campanha. “Castelo de novo, quem quer é o povo”, adianta o slogan. “O pessoal pediu que eu continue”, revelou o empresário. (J.A.)

As sessões de ônibus e táxi-lotação

Algumas das atitudes de Castelo, logo quando assumiu como deputado estadual, chamaram a atenção. Era comum, por exemplo, ver castelo ir para a sessão de ônibus ou táxi-lotação, diferente do que acontece com a grande maioria dos deputados estaduais. Depois de algum tempo, Castelo passou a locar um carro para ir às sessões.

Ele explicou que a despesa podia ser paga com a verba de gabinete. O empresário conta que, depois que teve de se afastar, devolveu o veículo. Ele descarta a possibilidade de comprar carros de luxo, como os que são usados por alguns dos parlamentares estaduais. Mas não os criticou por isso. “É uma exigência da própria Assembleia: os deputados têm que ter um pouco mais de conforto para exercer a função”, disse.

PAZ – Também diferente do muitos parlamentares estaduais, Castelo conta que nunca precisou contratar seguranças particulares ou portar armas de fogo. “Ando para todo canto. Nunca precisei andar com seguranças do lado, nem portando armas. O deputado tem que ser assim: uma pessoa da paz. Agora que tem inimigo precisa andar com arma, segurança”, disse, descartando que já tenha recebido qualquer tipo de ameaça. “Sou um homem de paz”, garantiu o empresário. (J.A.)

Experiência no Poder Legislativo
Na entrevista a O Jornal, Castelo também falou sobre a experiência que teve na Assembleia Legislativa. Ele lembrou que cinco projetos de lei de sua autoria foram aprovados pela Assembleia e sancionados pelo governador Teotonio Vilela Filho (PSDB).Sobre a relação com os deputados titulares, que não foram indiciados pela PF na Operação Taturana, o empresário garante que sempre teve um bom relacionamento.
“Os deputados são meus amigos. Não perdi essa amizade. Eles me consideravam como deputado, como pessoa e como cristão. Não tenho nenhuma mágoa deles. A não ser esses taturanas, que voltaram e que eu não conhecia. Mas todos eram meus amigos e foi uma grande experiência de vida que tive nesses dez meses na Assembleia”, afirmou,emendando: “Mas digo que passei dez meses não é porque a esperança de voltar acabou não”.
“Vou voltar. A sociedade alagoana pode ficar ciente que vamos voltar e dar prosseguimento ao nosso trabalho, à vida parlamentar. Porque realmente o povo alagoano precisa de deputados com vida transparente, que não estejam interessados em roubar o dinheiro público, que tenham responsabilidade e o pensamento de trabalhar para o povo”, garantiu.
PEDIDO – Ele também falou sobre o requerimento que os suplentes chegaram a apresentar para a Mesa Diretora da Assembleia Legislativa pedindo abertura de processo de cassação por quebra de decoro contra os deputados afastados e indiciados pela PF. Castelo explicou que o requerimento não foi para frente porque nenhum partido de peso quis assiná-lo, lembrando que o Fórum de Combate à Corrupção também fez um pedido semelhante.
“Apenas um partido assinou esse requerimento. Então o resultado foi esse aí. No Supremo [Tribunal Federal], o [Ministro-Presidente] Gilmar Mendes fez com quis”, disse, lembrando que, em outros estados, como o Espírito Santo, a Justiça estadual conseguiu manter deputados acusados de crime fora da Assembleia Legislativa. (J.A.)

Combate à dependência química
Apesar de ter se afastado da Assembleia Legislativa, Castelo não esqueceu do discurso que adotou em plenário como deputado. Ele aponta que 70% dos jovens alagoanos “estão mergulhados nas drogas”. “Isso é falta de projeto. Para se ter uma idéia, no ano passado voltaram R$ 500 mil para Ministério da Saúde porque uma Secretaria não enviou projeto para tratamento de dependentes químicos. Isso é uma falta de responsabilidade e mostra que eles não se preocupam com os anseios da população”, declarou.
A briga contra a dependência química é uma de suas bandeiras de luta. Em sua banca de revista, quem chega encontra um troféu na frente. Castelo explica que o item representa uma vitória pessoal para ele: “recebi esse troféu quando comemorei 27 anos que parei de beber. Me libertei em 82. Desde então virou minha missão. Acredito que vou conseguir lutar para tirar outras pessoas da dependência química”.
“Os deputados que voltaram não estão preocupados com isso, né? Estão preocupados em aumentar riqueza, comprar gado”, avalia o empresário. Por falar em seu trabalho social, ele narra, por exemplo, que toda quarta-feira, sobe a ladeira até o Sítio São Jorge para levar comida e roupas para serem doadas às pessoas carentes que moram no Lixão. “Isso tudo aqui é roupa e comida, para ser doada”, disse Castelo à nossa equipe, levantando duas sacolas plásticas pesadas, que estavam em um dos cantos da banca.
APOIO – Sobrinho do empresário, o major da Polícia Militar Luiz Fidelis conta que a família vem dando todo o apoio ao empresário desde sua entrada no mundo da vida pública. “De início, ficamos apreensivos. Mas procuramos dar todo o apoio a ele. Nos sentimos honrados pela atuação dele no parlamento”. Disse.
O major Luiz estava na banca de revista, no momento em que O JORNAL conversava com Castelo. “Acreditamos que pessoas que não votaram nele em 2006 porque não conheciam seu trabalho devem votar nele nas próximas eleições”, disse, revelando que os familiares e equipe de trabalho de Castelo sempre se empenharam para que o deputado continuasse exercendo seu mandato. (J.A.)

Fonte: O Jornal de 19 de julho de 2009

Reportagem: José àrabes

Foto: Marco Antônio

Nenhum comentário:

Postar um comentário